Fotografia de Baleias

Durante oito meses por ano Todd Pusser navega pelos oceanos do planeta fotografando baleias e golfinhos. Neste artigo ele analisa como os esforços pela conservação destes mamíferos continuam a ser frustrados pela sobre-pesca e por remanescentes países baleeiros.

Todd Pusser

Poucas coisas no mundo natural inspiram tanto sentimentos de deslumbramento ou encanto quanto o sinal de uma baleia ou golfinho saltando sobre a superfície da água em pleno oceano.

Desde o tempo de Jonas, baleias, golfinhos e toninhas, conhecidos coletivamente como cetáceos, fascinam as pessoas com sua graça, tamanho e poder.

Provavelmente nenhuma outra família de animais no planeta captura nossa imaginação da mesma maneira que os cetáceos o fazem. Para um fotógrafo de vida selvagem, estes mamíferos marinhos estão entre os assuntos mais difíceis de serem fotografados. Cetáceos costumam ser encontrados em áreas distantes do continente, em mares bravios em que enjôos são só um dos problemas a serem enfrentados: a maresia causa problemas e pode danificar seriamente equipamentos fotográficos (que não costumam ser baratos); raramente uma combinação entre boa luz e possibilidades de composição estão presentes, ao mesmo tempo, em alto-mar; o movimento das ondas causam horizontes inclinados em nove de dez takes... E, alem de tudo, fotógrafos estão tentando transformar em imagem animais que somente durante 10% de sua vida estão na superfície da água! Pode-se dizer que um fotógrafo, para conseguir uma imagem esteticamente agradável de uma baleia ou golfinho, em ambiente natural, deve ter completo domínio de seu equipamento, ser muito paciente e, sobretudo, ter muita sorte.

Visões surpreendentes

Eu tenho sido suficiente afortunado para trabalhar com cetáceos ao redor do mundo durante os últimos 10 anos, como biólogo e como fotógrafo. A maior parte da minha vida adulta tem girado ao redor do estudo e fotografia de baleias, golfinhos e toninhas em seus distintos ambientes naturais. Durante este tempo, eu testemunhei algumas visões realmente surpreendentes: orças cercando e atacando dusky golfinhos na Nova Zelândia, golfinhos bottlenose encalhando intencionalmente em lodos de água salgada na tentativa de caçar cardumes de mullets, baleias cinzentas se aproximando de pequenos botes como que propondo contato com mãos humanas, Atlantic Spotted golfinhos se alimentando no lodo e em águas rasas nas Bahamas... A lista poderia prosseguir mais e mais.

Todas estas imagens estão gravadas em minha memória e eu tenho algumas poucas fotos para tentar comprová-las. Entretanto, a lista de fotografias perdidas que eu tenho em minha cabeça é infinitamente maior e já me causaram mais de uma noite de sono justamente perdido! Talvez o mais chocante exemplo seja o de uma baleia fin, a segunda maior espécie de baleia, que saltou mais de setenta vezes seguidas... e eu não consegui nenhum frame com a baleia completamente fora da água, mesmo com ela saltando em um espaço de 400 metros ao redor do nosso barco... Eu tenho, entretanto, numerosas boas imagens dos enormes jorros de água resultantes de sua queda no oceano... É realmente incrível a quantidade de elementos que devem atuar em conjunto para que se consiga uma boa foto de uma baleia ou golfinho.

Por outro lado, é justamente essa dificuldade – a qual podem atestar muitos fotógrafos de diferentes assuntos na vida selvagem – que fazem com que cada imagem seja muito mais significativa.

Sabendo o quanto é difícil conseguir uma imagem de um destes cetáceos, em seu ambiente natural, a quantidade de fotografias que circulam no mercado de imagens me faz desanimar. Muitas imagens que aparecem em calendários ou publicações, que mostram baleias e golfinhos, são manipuladas digitalmente, uma crescente prática em fotografia de natureza. E, muitas vezes, esta manipulação não é revelada pelo fotógrafo. Isto é especialmente verdadeiro para fotografias de baleias e golfinhos. Você já deve ter visto fotografias incríveis de golfinhos bottlenose saltando em pares, com um glorioso pôr de sol, ou mesmo com uma fantástica praia cheia de coqueiros tropicais... digitalmente inseridos no funda da imagem. Muitas destas imagens são feitas em Honduras, com golfinhos treinados. Lá, um fotógrafo pode "alugar" um golfinho domesticado por U$ 200,00 por hora para uma performance de saltos exatamente em frente a uma locação cuidadosamente escolhida...

Enquanto essas imagens parecem ter seu lugar no mercado, eu prefiro fotografar baleias e golfinhos em seu ambiente natural, com suas características naturais e selvagens o mais preservadas possível.. Neste caso, existe alguma coisa que é muito mais satisfatória no fato de capturar imagens de uma baleia verdadeiramente selvagem ou de um golfinho se comportando naturalmente, sem o apoio de um golfinho treinado ou de manipulações digitais que incrementem fotografias artificialmente. Fotografia pode ser uma poderosa ferramenta no trabalho de conservação de baleias e golfinhos. É um meio que pode ser usado como educação e como inspiração para aqueles que podem não ter acesso, de outra maneira, ao que acontece no oceano, em suas mais diferentes localizações.

Países baleeiros

Muitas pessoas ainda não se deram conta que, ainda hoje, um número de países praticam caça industrial a baleias. O Japão caça mais de 700 baleias por ano, sob a desculpa de "pesquisa científica". A carne das espécies que são alvo dessa caçada – sperm whale, minke, sei, e bride's whale, sempre termina por acabar nos mercados e mesas, servidas como delícias extravagantes em elegantes restaurantes. Eu realmente não entendo como tantos dados científicos podem ser retirados da carcaça de uma baleia que não tenham sido observados após a caça de centenas de milhares de baleias que foi realizada nos séculos 19 e 20. a Noruega continua caçando baleias Minke no Atlântico Norte, juntamente com a Islândia e alguns pequenos países do Caribe, África Ocidental . Estes páises, ao lado do Japão, lutam juridicamente para abolir a moratória na caça às baleias imposta em 1986 pela International Whale Comission.

Riscos

As menores e pouca conhecidas espécies de cetáceos soa provavelmente as que correm maior risco. Centenas de milhares de pequenas baleias e golfinhos são mortos todos os anos, enliados em redes de pesca. A degradção dos seus ambientes naturais, em particular a continuada poluição dos oceanos, é outro elemento que contribui fortemente para a delicada condição atual de sobrevivência destes mamíferos. Algumas espécies de cetáceos estão em imediato risco de extinção. O baiji, espécie de pequeno golfinho só existente na China, no rio Yangtze, está reduzido a somente algumas dezenas de animais. Após recentes estudos, agora é bem conhecido os problemas que sonares marinhos militares tem causado em beaked whales ao redor do mundo, e principalmente em áreas como as Bahamas e as Ilhas Canárias.

Ainda que o quadro pareça realmente terrível, muito tem sido feito com o intuito da preservação das diferentes espécies de cetáceos ao redor do mundo. Cientistas estão desenvolvendo novas técnicas para estudar e calcular tendências de declínio ou incremento de populações, estruturas social e outros diversos aspectos da biologia dos cetáceos.

Ameaças específicas às populações de cetáceos têm sido repensadas. Novas técnicas de pesca e alternativas à poluição e envenenamento dos oceanos são atualmente questões de alta prioridade para grupos de conservação e cientistas. A observação de baleias como atividade turística se tornou uma grande possibilidade comercial nesse campo da economia, como uma "indústria limpa". Além de colaborar nos estudos e observação de diversas espécies, cumpre um papel fundamental de educação e sensibilização sobre estes surpreendentes animais em populações ao redor do mundo. E, para aquelas pessoas que não vivem perto do mar ou não têm possibilidades de praticar uma viagem para observação de baleias, em barcos e roterios especialmente constituídos para esse fim, a fotografia de baleias e golfinhos em seu ambiente natural pode servir como inspiração e, ao mesmo tempo, encorajar o conhecimento e cuidado sobre estes animais.

Baleias e golfinhos estão entre as espécies que certamente trazem grandes desafios ao fotógrafo, quando em seus ambientes naturais. Mas também posso dizer eu estão entre os assuntos fotográficos que mais prazer me possibilitaram. Minha esperança é de que as imagens que eu obtenho de cetáceos em seus diferentes e naturais ambientes possam ser usadas como uma ferramenta educacional para incrementar a consciência e, principalmente, inspirar outras pessoas no sentido da conservação da delicada sobrevivência destes animais.

Fonte: Outdoor Photography (Inglaterra), maio de 2004.
Publicado originalmente na revista inglesa Outdoor Photography, maio/2004 - Inglaterra

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Tradução livre de Flavio Dutra