Mudando para digital

Fonte: Australian Photography, junho de 2004

Ian Boyce é adepto e entusiasta da imagem digital e, ainda que tenha tido problemas no início, não se arrepende da sua conversão. Aqui ele apresenta algumas dicas importantes para aqueles que pretendem seguir este caminho.

Por mais de 30 anos minha Asahi Pentax Spotmatic foi uma constante companheira. Registrou passagens importantes de minha vida e os filmes que fiz com ela permanecem nos meus arquivos, começando a amarelar. As cópias, feitas em um pequeno banheiro de minha casa temporariamente transformado em laboratório, me mantiveram noites e noites lá confinado, enquanto minha mulher pacientemente cuidava da casa e minhas crianças dormiam.

Este tempo passou. O início da mudança foi quando passei a usar uma nova geração de equipamentos fotográficos, comprando minha primeira câmera autofocus eletrônica, uma Nikon N70 . Não foi um processo simples aprender a operar aquele novo brinquedo, com todas as suas inovações. Porém, com persistência, fiz bom progresso.

Muito aconteceu desde então. A tecnologia avançou na questão eletrônica, chegando ao estágio atual das câmeras digitais. Os preços se tornaram cada vez mais realistas e eu sucumbi, outra vez, a uma nova conversão radical. E acho que, neste momento, tenho alguma coisa para dizer a respeito dessa nova mudança.

Espero que as impressões e idéias que vou expor a seguir, e que são muito pessoais, possam ajudar àqueles que ainda estejam indecisos sobre o "momento decisivo" para ingressar no mundo digital de uma maneira séria e comprometida... Talvez abandonando anos de uso de uma tecnologia e, principalmente, maneira de fotografar, baseada no filme.

Eu me encantei profundamente por câmeras digitais logo nas primeiras vezes que tive contato com elas. Imediatamente senti que tinha que ter uma. Seria uma história muito longa contar todos os passos que me levaram a vender meu equipamento analógico e adquirir minha primeira câmera digital – o que, confesso, fiz com os dedos cruzados. E minha primeira impressão foi de ter cometido um grande engano. Em um primeiro momento, as desvantagens do digital foram muito gritantes para mim. Meu grande desapontamento era com o lapso de tempo entre o apertar o botão e a resposta da câmera. Na verdade, se tratam de dois lapsos de tempo: 1º) a diferença entre o tempo que você aperta o disparador e o momento que a câmera efetivamente registra a imagem; 2º) o tempo que a câmera leva para processar a imagem e estar novamente disponível para ser usada.

O que um fotógrafo efetivamente deseja é captar o momento que considera conclusivo de uma cena. Se uma criança está colocando um prato de spaghetti sobre a cabeça e o entornando, você quer estar disponível para captar o exato instante em que ela vira o prato. Você não pode antecipar o exato momento, a não ser que em um lance de sorte você dispare a câmera um momento antes do clímax da situação... Muita incerteza! Isso estava muito distante do que se podia fazer com a câmera analógica. Com filme, naquele momento, você podia estar certo de que ia captar o spaghetti no momento em que ele começasse a escorrer pelo prato em direção à cabeça da criança. Fotografia de crianças, de esportes ou de ação de qualquer tipo exige resposta imediata, tanto do fotógrafo quanto da câmera.

Naquele momento eu acreditava que fotografia digital só funcionaria para objetos parados, para still photography , ou para assuntos como paisagens e retratos. Comecei a pensar que o digital nunca atingiria a qualidade e a eficiência da fotografia com filme.

Entretanto, as coisas mudaram. Dois anos depois, com um constante uso do digital, estou convencido de que esta tecnologia é o caminho e o futuro definitivo da fotografia. O lapso de tempo entre a ação do fotógrafo e a resposta da câmera tem sido constantemente diminuído pela indústria, ao ponto que, neste momento, as diferenças são minúsculas. Da mesma maneira se pode falar em relação à qualidade da imagem ou às facilidades no uso do equipamento.

Um importante princípio, no qual eu acredito firmemente, é de que a qualidade – quer se trate de câmeras digitais ou de qualquer outra coisa – aumenta na proporção direta do valor que você paga. Em outras palavras, nenhum leitor deste artigo pode estar procurando por uma solução barata para ingressar no mundo digital, sob pena de comprar uma câmera que lhe gere muito mais desconforto e insatisfação que suas antigas questões com as câmeras analógicas produziam. Ainda assim, no último ano, os preços se tornaram muito razoáveis, mesmo se tratando de câmeras com boa qualidade. Hoje eu possuo uma câmera de último modelo reflex digital e posso ir ao meu esporte favorito, downhill, com bicicletas andando em alta velocidade muito perto de mim, e captar toda a ação que me interessar.

Ainda quanto à questão das limitações das câmeras digitais, meu conselho é para que se olhe cuidadosamente para o quão fácil é o controle da câmera antes de comprá-la. E tenha cuidado com um dos ditames atuais da "moda digital" de que quanto menor, melhor...

Os fabricantes têm sido hábeis em miniaturizar as câmeras de uma maneira que o controle de botões é tão pequeno que talvez você precise de óculos, pontas de caneta ou lentes especiais para controlá-la! Um querido amigo comprou uma câmera digital e, sendo de uma idade razoável, suas mãos simplesmente não conseguiam operar a câmera. A única solução era colocá-la sobre um tripé. E usá-la em espaços internos para que pudesse ver o que estava enquadrando no visor... Depois de um tempo batalhando, ele desistiu... a máquina hoje está com sua neta, emprestada... provavelmente para sempre.

Não se seduza pela idéia de que uma boa câmera é a menor possível. Câmeras digitais de boa qualidade fazem fotografias de boa qualidade e, em minha opinião, quanto maior, melhor.

Como você pode desenvolver suas habilidades em edição e tratamento de imagens digitais é um assunto bastante bem tratado em revistas especializadas, livros, tutoriais, escolas... Mas, por outro lado, não se torne demasiadamente ansioso a respeito do aprendizado de programas de edição, ou ainda, com questões de hardware (tipo ... se eu entrar para o mundo digital, necessito necessariamente de um novo computador? ). Se você possui um computador que é relativamente atualizado e bem equipado com memória, você certamente está ok. Além disso, se você dispuser de um software de edição de imagens como o photoshop ou similar, que toma conta de muitas das coisas que podem causar problemas em uma imagem digital, você estará tranqüilo.

Quando for comprar uma nova câmera digital, os critérios para lhe guiar na decisão de que equipamento comprar são simples: o maior número possível de pixels como resolução, o menor delay possível entre o momento que você aperta o disparador e a execução da imagem pela câmera, e tenha certeza de que o modelo é "amigável", ou seja, que você poderá manuseá-lo sem muitos problemas, com botões facilmente acessíveis e um conjunto de menus inteligente.

O menu da minha câmera atual tem todos os comandos em um única lista. Acho muito complicado procurar itens em um menu com dois ou três níveis quando você está em pleno desenvolvimento de um trabalho. Outro elemento com o qual você deve cuidar é o monitor. Algumas situações de luz, como em um dia ensolarado, podem realmente comprometer a sua capacidade de visualizar o que está no seu enquadramento.

Esteja preparado para gastar um bom dinheiro na melhor câmera que você puder comprar. Você não vai se arrepender. Além do que, você passará a economizar dinheiro não mais comprando filmes e os processando. Hoje, digital já é diversão garantida!