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A
arte da inadequação
Originalmente publicado na Folha de São
Paulo, em 18/10/2004
Abbas Kiarostami
Fiz muitas coisas ao longo de minha vida e me servi de instrumentos
diversos: a pintura, as artes gráficas, a publicidade,
a televisão, o cinema, a fotografia, o vídeo, a
poesia. Finalmente, fiz até mesmo teatro. E poderia acrescentar
outras coisas a essa lista. Por exemplo, a certa altura de minha
existência fiz carpintaria, quando decidi construir sozinho
os móveis de minha casa, mesmo sabendo pouco sobre isso.
Tudo isso, para mim, tem a ver com um problema de inquietude,
com o fato de ter de sobreviver de qualquer maneira e reagir
a um profundo sentimento de inadequação. Experimento
continuamente a exigência de fazer qualquer coisa de novo
para ser mais bem aceito. Muitos consideram que na vida é preciso
estabelecer uma meta para encontrar o sucesso, mas eu não
acredito que funcione dessa maneira. Talvez no mundo dos negócios
ou no âmbito científico. Na arte, ao contrário,
o aperfeiçoamento só pode surgir da inadequação.
Pensamos ser inadequados, não bastante bons, e nos esforçamos
para fazer algo diferente. Tenho uma amiga que é uma excelente
tradutora. Não que tenha trabalhado muito como intérprete,
mas, se lhe dão um texto em inglês ou em francês,
ela é capaz de vertê-lo imediatamente e com grande
facilidade ao persa, a ponto de nos fazer pensar que está lendo
um texto já traduzido. Um dia eu lhe disse: "Se você fosse
minha filha, eu a admiraria não pela sua capacidade, mas
pelo fato de você jamais trabalhar". Ela me deu uma
resposta belíssima: "Estou contente comigo mesma.
Não preciso ver meu nome na capa de um livro como tradutora".
Não há nenhuma razão especial pela qual
eu tenha me tornado um realizador cinematográfico. Meu
pai era caiador de paredes e não me lembro de nenhum sinal
de vida cultural em minha família. Não vejo, no
meio em que vivi, nenhum sinal particular que me houvesse encaminhado
para a carreira artística e em especial para o cinema.
Talvez seja por isso que até agora não tenha conseguido
encontrar uma definição de cinema. Mas posso dizer
do que não gosto nele. Não gosto quando se limita
a contar uma história ou quando se torna um substituto
da literatura. Não aceito que subestime ou exalte o espectador.
Não quero estimular a consciência do espectador
nem criar nele sentimentos de culpa. No mínimo, creio
que se deveriam narrar os fatos de modo que ele não seja
levado a sentir-se culpado. Se considerarmos que o cinema tem
o dever de contar histórias, parece-me que o romance faz
isso melhor. As novelas radiofônicas, os dramas e as "soap
operas" [novelas] televisivas fazem, neste sentido, um bom
trabalho.
Arte menor
Ultimamente, tenho pensado em um outro tipo de cinema, que me
torne mais exigente e que se defina como uma sétima arte.
Nesse cinema há música, sonho, história,
poesia. Mas, seja como for, acho que o cinema continua a ser
uma forma de arte menor. Questiono-me, por exemplo, por que motivo
ler uma poesia excita a nossa imaginação e nos
convida a participar de sua realização. Sem dúvida,
a poesia, não obstante seu caráter de incompletude, é criada
para alcançar uma unidade. Quando minha imaginação
se mistura com ela, a poesia torna-se minha. A poesia nunca conta
histórias. Oferece uma série de imagens. Representando-as
em minha memória, apoderando-me de seu código,
posso elevar-me ao seu mistério. Raramente encontrei alguém
que, ao ler uma poesia, dissesse: "Não a compreendi".
Porém, de um filme, se alguém não capta
uma relação, uma conexão, geralmente diz
que não o entendeu. Ao contrário, a incompreensão
faz parte da essência da poesia. Aceita-se tal como ela é.
O mesmo vale para a música. O cinema é diferente.
Nos aproximamos da poesia pelos nossos sentimentos e, do cinema,
por nosso pensamento ou por nosso intelecto. Não se imagina
que alguém possa contar uma poesia, mas é normal
contar, ao telefone, um bom filme a um amigo. Penso que, se queremos
que o cinema seja considerado uma forma de arte maior, é preciso
garantir-lhe a possibilidade de não ser entendido. Como
dizia, não suporto o cinema narrativo. Abandono a sala.
Quanto mais se esforça por contar e quanto mais sucesso
tem nisso, maior é minha resistência. A única
maneira de prefigurar um cinema novo reside em um maior respeito
pelo papel desempenhado pelo espectador. É preciso antecipar
um cinema "in-finito" e incompleto, de modo que o espectador
possa intervir para preencher os vazios, as lacunas. A estrutura
do filme, em vez de sólida e impecável, deveria
ser enfraquecida, tendo em conta que não se devem deixar
escapar os espectadores! Talvez a solução adequada
consista em estimular os espectadores a uma presença ativa
e construtiva. Por isso, estou meditando a respeito de um cinema
que não faça ver. Creio que muitos filmes mostram
demais e, dessa maneira, perdem o efeito. Estou tentando entender
o quanto se pode fazer ver sem mostrar. Neste tipo de filme,
o espectador pode criar as coisas de acordo com a sua própria
experiência, coisas que não vemos, que não
são visíveis. Em "O Vento Nos Levará" [de
Kiarostami, 1999], por exemplo, há 11 personagens que
não aparecem de modo nenhum. No fim, nos damos conta de
que não os vimos, porém sabemos que estavam lá e
que coisas faziam. Por exemplo, de nada adianta mostrar a mulher
de Behzad (o protagonista de "O Vento Nos Levará"):
seu aspecto físico não tem nenhuma importância.
O fato de não vê-la não impede o espectador
de ter uma idéia da relação que existe na
intimidade do casal e de imaginar o que responde ao seu marido.
O espectador tem de intervir se quiser perceber tudo. Aliás,
precisa colaborar em seu próprio interesse, para que o
filme se enriqueça. Se sugerirmos ao espectador que ele
veja apenas o que se mostra através das lentes da câmera
-que se trata de uma visão limitada da cena-, então
ele poderá imaginar o resto, aquilo que está além
daquilo que seus olhos alcançam. E os espectadores têm
uma mente criativa. Se, por exemplo, não vemos nada, mas
ouvimos o som de um carro que breca num cruzamento e depois bate
em algo, automaticamente temos a imagem mental de um acidente.
O espectador sempre tem a curiosidade de imaginar o que existe
para além de seu campo de visão: está acostumado
a fazer isso continuamente na vida cotidiana. Mas, quando as
pessoas entram num cinema, por hábito deixam de ser curiosas
e imaginativas e simplesmente recebem o que lhes é oferecido. É isso
o que procuro mudar. Suponho que o sonoro pode assumir o papel
do que não é visível. Não é preciso
dizer tudo ao espectador. As pessoas têm idéias
diversas umas das outras, e eu não quero que todos os
espectadores completem o filme em sua imaginação
da mesma maneira, como se fossem palavras cruzadas idênticas,
independentemente de quem as estiver resolvendo. Não deixo
espaços em branco apenas para que as pessoas tenham algo
para completar. Deixo-os em branco para que as pessoas possam
preenchê-los de acordo com o que pensam e querem.
Olhos emprestados
Em minha perspectiva, a abstração que aceitamos
nas outras formas artísticas -pintura, escultura, música,
poesia- também pode entrar no cinema. Em persa, temos
um ditado que afirma, quando alguém olha algo com verdadeira
intensidade: "Tinha dois olhos e pediu mais dois emprestados".
Estes dois olhos tomados de empréstimo são aquilo
que quero capturar. É o desejo de lutar contra tudo o
que os filmes de entretenimento fazem diariamente: pretender
mostrar tudo ao público, a ponto de tornarem-se pornográficos.
Não digo sexualmente pornográficos, mas no sentido
de mostrar uma operação cirúrgica sem véus,
em todos os seus detalhes repugnantes. Sinto que cada vez que
um espectador tem o impulso de virar a cabeça ou olhar
para o outro lado é porque essas cenas não são
necessárias na tela. Ao contrário, minha maneira
de enquadrar a ação obriga os espectadores a manterem-se
mais direitos e a esticar o pescoço para tentar enxergar
aquilo que eu não mostro! Num dia em que não tinha
nada para fazer (eram os primeiros anos da revolução,
e nosso trabalho de cineastas fora interrompido por fatos políticos),
comprei uma câmara fotográfica Yashica barata e
fui até o campo. Sentia necessidade de sentir-me em unidade
com a natureza, era ela que me guiava. E, ao mesmo tempo, tinha
necessidade de partilhar com os outros os bons momentos que testemunhava.
Assim, comecei a tirar fotografias para tornar de alguma maneira
eternos esses momentos de paixão e de dor. Há 25
ou 26 anos faço seriamente fotografia. Nem sempre sou
cineasta, pelo contrário, realizo um filme a cada dois
ou três anos, mas freqüentemente as regras narrativas
me impedem de realizar certas imagens que tenho em mente. No
cinema, infelizmente, é preciso contar uma história,
ao passo que na fotografia somos mais livres, e uma estrada que
se estende em direção a um certo lugar que não
se vê pode abrir-nos um mundo desconhecido. Essa fotografia
não conta uma história, mas nos deixa a liberdade
de imaginá-la. Ante uma fotografia, o espectador pode
fazer a sua própria viagem. Por isso, às vezes
penso que a fotografia é uma arte mais completa; que uma
fotografia, uma imagem estática, vale muito mais que um
filme. O mistério de uma fotografia permanece em segredo
porque é sem sons, não há nada em seu entorno.
Uma fotografia não conta uma história, e por isso
está em perene transformação. Sobretudo,
tem uma vida mais longa que a do filme. Numa conferência
sobre a paisagem na Dordonha [região do rio homônimo,
no sudoeste da França], em setembro de 2000, apresentei
duas fotos da mesma paisagem com poucas árvores. Sem comentários.
Quinze anos separavam as duas imagens. Quando as vejo, sinto
medo. São, de fato, duas fotografias tiradas exatamente
do mesmo ponto de vista, do mesmo ângulo, que representam
a mesma paisagem. Mas no intervalo de tempo algumas árvores
desapareceram. Na fotografia mais recente, nota-se a ausência
delas.
Dizer muitas coisas
Sinto-me, hoje, mais fotógrafo que cineasta. Às vezes penso:
como fazer um filme em que não se diz nada? Se as imagens conferem ao
outro o poder de as interpretar, extraindo delas um sentido, um sentido que
eu nem imaginava, melhor é não dizer nada e deixar o espectador
livre para imaginar tudo. Ao contar uma história, conta-se uma história.
Cada ouvinte, com sua capacidade de imaginar coisas, ouve uma única
história. Mas, quando não dizemos nada, é como dizer muitas
coisas. O poder se transfere ao espectador. [O escritor francês] André Gide
[1869-1951] dizia que o que conta é o olhar, não o argumento.
E, para [o cineasta francês Jean-Luc] Godard [1930], o que se vê na
tela já está morto. Só o olhar do espectador é capaz
de insuflar-lhe vida.
Não trabalho sobre os negativos. Para mim, um negativo,
uma fotografia, não tem valor do ponto de vista da arte
fotográfica senão quando não foi alterado
ou cortado para a finalidade da impressão. Por isso é preciso
que as bordas, a moldura preta que circunda o negativo da imagem
seja visível, para que a fotografia seja válida. É o
olhar do fotógrafo que importa, quando este se encontra
em meio à natureza, e não quando, no laboratório,
tem tempo de escolher, de eliminar aquilo que não lhe
agrada ou de conservar o que lhe interessa. Por isso, minhas
fotografias são tal e qual como foram tiradas.
É por isso que nas impressões de todas as minhas
fotos mantenho a linha negra que circunscreve o fotograma como
um documento: é a prova de que não houve manipulação
da imagem. Em muitas de minhas fotografias, só aparece
um elemento, como uma árvore, um único animal ou
uma estrada solitária. Não sei até que ponto
isso depende de uma escolha estética ou conceitual. Mas,
naturalmente, uma árvore sozinha é mais árvore
do que muitas árvores. Conhecem a história do menino
que pediu ao pai para lhe mostrar uma floresta? O pai concordou,
e, quando chegaram, o pai perguntou se o menino avistava a floresta.
Admirado, o menino disse: "Vejo, mas são tantas árvores
que quase não consigo ver a floresta". Quando se
tem tanta árvore alinhada de um lado a outro, já não
se vêem as árvores. Vê-se outra coisa que
transmite um outro conceito. Penso que se pode ter a mesma impressão
quando há muitas pessoas juntas. Também elas perdem
a própria individualidade e tornam-se massa e se conservam
juntas por causa de seu interesse social. Nessa situação,
as pessoas concentram-se unicamente em torno de seus interesses
coletivos, tornam-se maravilhosas como protagonistas de um movimento
social, mas não possuem nenhuma individualidade. As pessoas
podem pensar de forma diferente para si, mas rendem-se aos interesses
coletivos, que acabam por destruir a sua individualidade.
Impotência diante da tela
Antes de me tornar fotógrafo, pintava, mas nunca me considerei um pintor.
A academia de belas-artes ajudou-me a perceber que não sou um pintor.
A pintura era uma espécie de terapia. Antes de passar à pintura,
eu era sobretudo um voyeur. Quero dizer que me concentrava em detalhes que,
para outros, eram insignificantes. Interessava-me por tudo aquilo que lhes
dizia respeito, mas jamais consegui pintar o que via. Sentia-me impotente diante
de uma tela, e essa impotência me desafiava ainda mais a pintar. A descoberta
da câmera fotográfica talvez tenha substituído a terapia
da pintura. A natureza é uma grande pintora, que pinta com vários
estilos e métodos. Às vezes basta um clique para tornar eterno
um momento da existência desse grande pintor. Hoje, prefiro registrar
por meios mecânicos as suas maravilhas, com as quais meu pincel não
pode competir. Deixei de pintar em 1982. Abri uma exceção em
1988, ao realizar um quadro que pode ser definido como hiper-realista. Trabalhei
nele uns 20 dias, paciente e escrupulosamente. Quase se é obrigado a
empregar uma lente de aumento para distinguir essa paisagem de uma fotografia.
Foi, para mim, uma verdadeira terapia: ainda hoje, contemplar esse quadro é suficiente
para me tranqüilizar. Por três vezes em minha trajetória
não posso dizer que o uso do digital tenha me sido imposto, mas apresentou-se
a mim. Por exemplo, em "Gosto de Cereja" [1997], eu havia rodado
a cena final, mas os negativos foram estragados em laboratório, e assim
perdemos o ponto culminante da primavera. Não podíamos esperar
outro ano para obter a mesma paisagem. Por isso, tive de recorrer às
imagens gravadas com uma câmera digital por uma pessoa da trupe, que
tinha filmado o "backstage". A segunda vez em que utilizei o digital
foi em "ABC África" [2001]. Tinha levado comigo duas câmeras
apenas para tomar alguns apontamentos; inicialmente não havia nenhuma
intenção de usar os registros realizados nesse estágio.
Quando fui assistir ao filme que tinha gravado, percebi que seria impossível
voltar a filmar com uma câmera 35 mm e obter a mesma simplicidade e vitalidade
conseguidas com a câmera digital. Da terceira vez, escolhi conscientemente
o digital e, munido de uma pequena câmera, saí em busca de meus
atores. Acho que seria impossível fazer "Dez" [2002] sem o
uso do digital, porque essas câmeras nos restituíram a intimidade
das pessoas, aproximaram o autor de sua obra, suprimindo os intermediários.
Há uma prece que diz: "Deus, mostrai-me as coisas e as pessoas
por aquilo que elas são e eliminai as falsidades que podem confundir
minha percepção". E Deus criou a câmera digital. Em "Dez",
minha intenção não era criticar a câmera 35 mm ,
mas a maneira como ela é utilizada. Ela tornou-se, na verdade, o símbolo
dos cavaleiros do Apocalipse. A câmera digital permite que nos afastemos
da tecnologia e da indústria do cinema, possibilita evitá-la.
Quando se trabalha com os capitalistas, com aqueles que colocam o dinheiro,
criam-se algumas obrigações, temos de prestar contas. Não
precisamos mais disso. O cinema não precisa de tantos instrumentos.
Hoje, os cineastas encontram-se sob o jugo dos instrumentos de cinema, são
obrigados a utilizá-los, de uma maneira ou de outra. [O cineasta francês]
Eric Rohmer [1920] não gosta dos filmes onde o trabalho da câmera
se vê demais, porque ergue um anteparo entre o espectador e a realidade
reconstituída pelo filme. É verdade. Mas, à presença
da câmera, eu acrescentaria a presença do realizador. Há cenas
em que a presença do realizador é mais evidente do que em outras.
Até a música, por exemplo, faz parte das escolhas do realizador.
Foi imposta por ele. É como se tivesse a intenção de simular
algo e nos informasse: "Agora vocês devem se tornar sentimentais".
E oferece um conselho supérfluo, como se apresentasse um lenço: "Tudo
bem, podem chorar, isso me dará prazer". Depois há esses
movimentos incríveis de câmera, ante os quais nos perguntamos,
por exemplo, como a câmera conseguiu atravessar uma janela. Esquece-se
a história e persegue-se a mágica da câmera, os sortilégios
do diretor. Em "Dez", o espectador fica alheio aos protagonistas,
que não parecem se dirigir a ele. O espectador nunca é colocado
no lugar deles. Isso corresponde à eliminação do autor.
Filme sem diretor
Num dia, fizeram-me um elogio involuntário, que me impressionou muito.
Apresentaram-me alguém, com as seguintes palavras: "Eis o diretor
de "Close-Up" [1990]". O sujeito, que não era do mundo
do cinema, respondeu: "Ah, eu pensava que o filme não tivesse um
diretor!". Achei essa idéia sublime. Foi isso o que tentei fazer
com "Dez". Dito isso, é provável que eu realize o próximo
filme novamente em 35 mm .
Com o passar do tempo, minha atração por muitas
coisas diminui, dia após dia. Quero dizer que já não
tenho o mesmo grau de preocupação com os meus filhos,
que meu apetite por comida é menos intenso, que o desejo
de ver meus amigos é menor. O que substituiu tudo isso
e que se torna cada vez mais forte, embora não me atraísse
em minha primeira juventude ou eu não o percebesse, é o
desejo de estar na natureza, de contemplar o céu, o outono,
as quatro estações.
Muitas vezes declarei a meus amigos: "Essa é a única
coisa que me faz temer a morte". Não o medo de morrer,
mas a idéia de perder a natureza que ainda tenho, a possibilidade
de contemplar o mundo. Porque o único amor que aumenta
de intensidade a cada dia, enquanto os outros amores perdem sua
força, é o amor pela natureza. É por esse
motivo que meus próximos filmes ainda continuarão
a observar a natureza, e de fato seus temas constituirão
um pretexto para encontrar-me de novo no meio dela.
Não me sinto particularmente orgulhoso daquilo que realizei
no decorrer de minha vida artística. Acho que o sentimento
do "orgulho" é inadequado à condição
humana. Nem sinto nenhum arrependimento quando recordo o passado.
Vejo apenas uma vida comum. Temos, normalmente, tendência
a lamentar as coisas que nunca fizemos. Às vezes o tempo
parece tão curto que somos levados a pensar que não
há, de fato, tempo. Mas esse remorso também não
me faz sofrer, porque acho que sempre fiz aquilo que quis.
Quanto ao futuro, simplesmente não tenho tempo de pensar
nele.
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