Digital x Filme: a visão de um fotógrafo profissional

Fonte: Australian Photography, junho de 2004

O fotógrafo profissional do diário
The Sunday Times (Perth, Austrália) Gary Merrin, coloca sua colher no debate sobre as diferenças, vantagens e desvantagens dos processos analógicos e digitais em fotografia.

O debate entre fotógrafos — profissionais ou amadores — a respeito do "novo" digital versus o "velho" filme, está bem longe do fim. Como um fotógrafo profissional, posso dizer que estou quase isolado em minha posição. Sou fotógrafo na redação do jornal The Sunday Times , in Perth, Austrália. Minha empresa converteu todos os procedimentos relativos à fotografia em processos digitais no ano de 2002. Toda a equipe de fotógrafos foi municiada com equipamento Nikon, digital.

Paralelamente à minha posição de fotógrafo contratado do jornal, sempre desenvolvi um trabalho pessoal ou como freelance , usando meu próprio equipamento analógico em diferentes trabalhos, com diferentes deadlines , tipos de publicação ou usos das imagens. Ouvindo experiências de outros fotógrafos ou experimentando diversas situações com equipamento digital, estou ainda convencido a permanecer usando filme em meu trabalho particular.

Digital é o caminho óbvio para a indústria da informação impressa. A velocidade da tecnologia facilita o trabalho da hard news e os cada vez mais apertados deadlines da imprensa diária. As primeiras imagens podem ser jogadas no sistema em um par de minutos depois do retorno à redação ou, ainda, transmitidas diretamente de onde foram produzidas pelo fotógrafo. Todo o tempo de processamento de filmes foi vencido e agora serve para outras coisas. Em geral, para mais trabalho...

Da minha experiência pessoal (e, após 35 anos de trabalho em fotografia profissional, o digital se apresenta quase como uma nova dimensão de conhecimento), posso dizer que o digital parece apresentar uma qualidade de imagem melhor do que os filmes apresentam em imagens feitas à noite, por exemplo. No jornal, nós temos um turno nas sextas-feiras que vai das 23 às 7 horas da manhã do sábado no qual geralmente cobrimos acidentes de carro ou incêndios (o apelidamos causticamente de "turno da morte").

Pessoalmente, nessas situações, eu costumo definir como sensibilidade para minhas imagens o ISO 800 (da mesma maneira q costumava fazer com filmes), e onde for possível, eu vou disparar com flash em velocidade 1/20s e diafragma em torno de f 4,5, para ter alguma profundidade de campo mas ao mesmo tempo garantir alguma luz ambiente que me possibilite capturar a "atmosfera" da situação. Câmeras digitais parecem captar melhor iluminações de pouca intensidade, tais como faróis de carros ou luzes de rua.

O detalhe das sombras é impressionante no digital, mas, por outro lado, se você sobre-expuser uma fração de ponto de luz nas altas luzes, você pode simplesmente considerar essa imagem como perdida. Filmes costumam "perdoar" mais nestas situações, mesmo filmes "slide". Eu e meus colegas temos comentado, também, que o digital parece ter problemas com cores vibrantes como o vermelho, da mesma maneira que o quase extinto Kodachrome parece ter.

Existem ainda outras desvantagens. Nosso primeiro corpo de D1 somente podia fazer imagens que gerassem arquivos de 7mb, o que não possibilitava a qualidade e resolução que o Departamento de Arte desejava para algumas capas de página inteira (em geral para os suplementos específicos). Isso foi ultrapassado com a chegada da D1x e seus arquivos de 17mb.

Para uma empresa de notícias ou para um fotógrafo profissional freelance que use digital, o capital necessário para converter o equipamento analógico em digital não é barato. Aliás, está longe disso, mesmo se calcularmos as futuras economias de gastos com filmes e suas revelações e cópias. Outra coisa é que, além do equipamento de captura, você deve obrigatoriamente manter um eficiente sistema de arquivamento e backups de todas as suas imagens digitais. Esse processo é quase tão importante quanto o equipamento de captura, câmeras, lentes, flashes... No jornal o sistema perdeu alguns importantes e recentes arquivos logo depois da conversão para o digital. Naquele mesmo momento, um produtor de shows da Inglaterra estava em contato comigo. Ele queria algumas imagens que fiz em Londres no começo dos anos 70. Eu tinha meus negativos e slides do evento que ele procurava acessíveis a qualquer momento. Um pouco de tira-e-bota de caixas pra lá e pra cá, mas estavam todos lá. Trinta anos depois... Muito da força do meu trabalho arquivado é justamente o seu valor como memória. Eu me especializei na cobertura de concertos de rock/pop desde o final dos anos 60. Ainda hoje é possível para mim usar imagens que produzi há 20 ou 30 anos. Do mesmo modo, eu hoje penso que algumas das imagens que não presto muita atenção neste momento poderão ser importantes daqui a 20 ou 30 anos.

Com minhas velhas imagens, ainda posso usar o mesmo sistema de arquivamento e busca: posso abrir caixas de sapatos e gavetas a qualquer momento... Porém, emminha experiência com computadores eu já perdi um cd de imagens que "falhou"... felizmente meus slides do concerto da banda Queen, nos anos 70, continuavam intactos. Possivelmente se eles estivessem simplesmente sido transformados em uma mídia digital, eles poderiam estar irremediavelmente perdidos. Eu tenho lido em discussões de listas na internet sobre as preocupações que os mais diversos profissionais têm quanto à longevidade e estabilidade do arquivamento de imagens em CDs. Seremos capazes de encontrar e abrir imagens solicitadas por um editor com um deadline apertado, em 10, 20 ou 30 anos?

Eu também tive (e provavelmente outros além de mim) meu computador varado por vírus poderosos que simplesmente ignoraram meus programas anti-vírus, desarticulando todo o meu sistema e me fazendo perder muitos dados. Talvez eu estivesse diante de um verdadeiro desastre se todo o meu trabalho fosse digital.

Outra coisa que me aconteceu foi que um dos meus cartões de memória subitamente "falhou" enquanto trabalhava com meu equipamento digital, emperrando minha câmera em um incêndio às 4h da manhã. Graças a deus eu carrego sempre um corpo extra e outros cartões.

Eu costumo escanear algumas das minhas imagens, as salvando em cds para clientes ou as mandando por e-mail. Sempre mantenho estas imagens em um arquivo digital para mim mesmo, mas eu efetivamente sinto que o meu verdadeiro backup são os slides originais que estão em uma caixa ou armário à prova de luz e bem guardados. Fotógrafos costumam dizer que uma solução possível é fazer diversas cópias em diversos CDs , assim como fazer backups de HDs. Este é um tipo peculiar de progresso... Com filmes, eu nunca tive urgência em copiar originais para armazená-los separadamente como garantia...

A vantagem digital de fotografar com filmes é que eu posso proteger meus valiosos originais os escaneando e enviando para um cliente em CD ou por e-mail, sem me preocupar com as condições em que eles retornarão ou se eles serão perdidos ou danificados.

Outra coisa: algumas das imagens que me são solicitadas agora tinham pouca importância no momento em que foram feitas – e mesmo eu não esperava que elas fossem ter valor na medida que o tempo passasse. Se elas tivessem sido feitas em digital, eu provavelmente não as teria arquivado... talvez tivesse mesmo as deletado enquanto voltava para a redação ou para casa na carona de um amigo. Arquivamentos digitais devem ser meticulosos, permanentes e feitos rapidamente. Com filmes, eu posso guardar uma caixa de slides e trabalhar com ela em um outro momento, muitas vezes como lazer.

E, no caso do arquivamento, muitas questões têm surgido. Se os sistemas de arquivamento mudarem para uma nova mídia, teremos que transferir todos os nossos dados gravados em CD para esta nova mídia? A tecnologia tem mudado muita rapidamente nestes dias. Câmeras digitais, computadores e arquivamento precisam ser atualizados – um tipo de despesa que um profissional não deve esquecer de levar em consideração quando faz seus orçamentos ou contratos de trabalho. Porém, estranhamente, muita gente pensa que uma cobertura digital profissional deve ser muito mais barata e rápida hoje em dia do que foi algum tempo atrás (no "tempo do filme"). Afinal é tão fácil agora... Efetivamente, se um profissional fizer tudo de uma maneira apropriada em seus orçamentos, ele terá que computar uma quantidade de tempo, habilidade, experiência e capital para chegar a uma determinada qualidade de trabalho que deve sempre ser remarcado como algo considerável na hora de apresentar um preço para o trabalho.

Enfim, pese as suas reais necessidades pelo digital antes de simplesmente se jogar em um vagão que todos os dias nos atrai com a tentadora promessa do novo e do que nós devemos ter/usar. Certamente muito dessa escolha deve passar pelos usos que pretendemos fazer de nossas imagens.

Um dia, talvez, o uso do equipamento digital seja a maneira "normal" de se trabalhar com fotografia. Mas, hoje, filmes ainda têm muita utilidade e capacidade de resposta a este novo .