Foto é olho, coração e pés

Originalmente publicado na Folha de São Paulo, em 25/10/2004

Eder Chiodetto

Ávido por rever "esta cidade multirracial e pulsante", o fotógrafo suíço René Burri, 71, desembarcou em São Paulo sem desgrudar da sua câmera Leica e querendo voltar aos locais que fotografou na década de 60. Fotojornalista dos mais aclamados, Burri foi pupilo e, depois, um dos melhores amigos de Henri Cartier-Bresson (1908-2004), que o integrou ao staff da mítica agência Magnum, no início dos anos 50, da qual chegou a ser vice-presidente.

A Europa do pós-guerra foi o tema que tocou o fotógrafo iniciante no final dos anos 40. Esse trabalho o conduziu para a Magnum e, nos últimos 50 anos, Burri viajou a incontáveis países em todos os continentes realizando reportagens. Esteve presente na Guerra do Vietnã, fotografou os gaúchos entre Argentina e Brasil, retratou Che Guevara recém-empossado como ministro em Cuba e a inauguração de Brasília, além de personalidades como Picasso, Le Corbusier, Ingrid Bergman e o próprio Cartier-Bresson, que detestava ser fotografado, mas sempre atendia aos apelos do amigo.

Possui cerca de 13 livros que formam um conjunto dos mais relevantes para a história do fotojornalismo. "Os Alemães", no qual retratou a reconstrução da sociedade alemã pós-guerra, é documentário dos mais contundentes e belos. Sobre o impacto das novas tecnologias na fotografia foi enfático. "Tanto faz a máquina, uma boa fotografia é fruto da sintonia entre olho, coração e pés", disse em entrevista exclusiva à Folha, antes da palestra e do workshop que veio dar em São Paulo.


Após 44 anos, fotógrafo revê SP de cima

Absolutamente entusiasmado com a estada em São Paulo , René Burri comentou logo ao chegar, com o representante da Leica (empresa que o trouxe ao Brasil com o apoio do Senac), que gostaria de lembrar em qual local ele havia feito a fotografia de São Paulo que está publicada nesta página -quando aqui esteve, em 1960, para realizar uma reportagem sobre a cidade para uma revista européia. Na palestra, realizada no Senac na quinta-feira, ele disse que essa é uma das suas fotografias prediletas.

Para seu espanto, o cicerone que o acompanhava sabia exatamente qual era o local: o alto do edifício do Banespa, no centro da cidade.

Ontem, após ter saboreado um sanduíche de mortadela no Mercado Municipal, levou e foi levado pelos 13 alunos do seu workshop para o centro da cidade e, 44 anos depois, retornou ao local onde havia feito a foto da cidade e, emocionado, fez novas fotos repetindo o mesmo ângulo, mas tendo que se conformar com a poluição visual da cidade que modificou a paisagem.

Na década de 60 Burri passou cerca de seis meses na América do Sul para fotografar os gaúchos entre a Argentina e o Brasil. Depois de passar por São Paulo foi ao Rio de Janeiro e à Amazônia.

Várias imagens dessa viagem estão no livro "René Burri Photographs", recém-publicado pela editora de arte inglesa Phaidon, obra que seria o catálogo definitivo do fotógrafo se ele não estivesse neste momento editando um segundo volume apenas com fotografias coloridas.

No site da Magnum (www.magnumphotos.com) é possível ver um vasto portfólio de Burri e de todos os fotógrafos, vivos e mortos, da agência.

Suíço diz que sempre evitou retratar constrangimento e que credibilidade do fotógrafo é seu melhor equipamento
 

"Orgulho-me das fotos que não fiz", diz Burri 

Uma das imagens mais conhecidas de René Burri é o retrato de Che Guevara, então com 35 anos, fumando um charuto em seu gabinete de ministro da Indústria, em Havana, em 1963. Burri recebeu a reportagem da Folha também envolto numa nuvem de charuto, que ele fumava enquanto contava animadamente sua trajetória nesses 50 anos de atividade. Ele falou sobre as fotografias que deixou de fazer, sobre fotografia digital e sobre São Paulo, entre outros temas. Leia a seguir alguns trechos. 

SÃO PAULO

Ao chegar a São Paulo em 1960 a cidade me pareceu semelhante a Chicago, por causa do dinamismo e do poderio econômico. Eu ficava intrigado com a miscigenação e a mistura de culturas. Pensei, e ainda penso, que São Paulo pode vir a ser o exemplo de uma cidade multirracial que funciona em harmonia. Talvez daqui a uns 20 anos pode acontecer aqui uma revolução com o surgimento de um novo Che Guevara. Na verdade, acho que esse tempo é mais propício a uma evolução do que a uma revolução.

Na Europa tudo parece encaixado, é tudo pré-programado. Aqui as coisas ainda estão por serem feitas. Existe a possibilidade de se recriar sempre.

CUBA

Em 59, após seis meses na América Latina, optei por tirar férias e fui esquiar com minha família na Suíça, abrindo mão de ir fotografar "um monte de barbudos que estavam descendo da Sierra Maestra, em Cuba". Era a Revolução Cubana. Fiquei com um peso no coração por dois anos, até que me chamaram de novo e consegui fotografar o Che. Fiz uns oito rolos de filmes e não tem sequer uma foto em que ele esteja olhando para mim. Ele fazia um gênero de quem não estava suportando a minha presença. Ignorou-me completamente, talvez porque eu estivesse com uma americana.

DIGITAL E A MANIPULAÇÃO

Digital ou negativo é apenas uma questão técnica. O ato fotográfico vai além. O importante ainda é a sintonia entre olho, coração e pés. O problema está na credibilidade do fotógrafo e não no equipamento. Durante a Guerra Fria, os russos retocavam as fotos; hoje o mundo inteiro faz o mesmo.

Os fotógrafos têm a obrigação de fotografarem o mundo para que daqui a 100 anos se tenha um visão realista de hoje.

Todos parecem mais preocupados em se tornar celebridade que em trabalhar honestamente. A vida não é uma corrida rápida, é uma maratona.

As fotos feitas pelos fotógrafos infiltrados nos Exércitos americano e britânico na Guerra do Iraque são imagens hollywoodianas, isso não pode acontecer. Ficaram no conforto do abrigo e deixaram de contar a história real.

Acredito que seja necessário que os fotógrafos busquem a verdade e editores que tenham coragem de publicá-la.

FOTOGRAFIAS NÃO FEITAS

Não lamento as fotografias que não fiz. Aliás, eu me orgulho de várias fotos que deliberadamente não fiz. Nunca gostei de fotografar miséria, pessoas mortas ou em situação constrangedora.

Fotografar é importante, mas a vida e o respeito a ela estão na frente de tudo.

MAGNUM

Com a energia dos novos fotógrafos a Magnum pode manter a força. A questão é como se manter independente. Mas pode ser que um dia ela acabe. Já foi um milagre se manter por 60 anos. Isso ocorreu graças ao Cartier-Bresson, que dava as linhas mestras da agência. Ele tinha a capacidade de manter as pessoas reunidas em torno da árvore. Ele resistiu muito a aceitar fotógrafos contemporâneos como o Martin Parr, por exemplo.