Crônica de uma foto não tirada

Alberto Gonçalves

 

Depois de fotografarmos o Salto Yucumã, no Parque Estadual do Turvo, enveredamos por trilhas de onde emergia um microcosmo capaz de enlouquecer qualquer fotógrafo ávido por composições inusitadas.

Eram tantas coisas - flores, borboletas, folhas com nervuras, insetos, teias-de-aranha, gotas de orvalho brilhando ao sol, cascas de árvores com textura e o próprio cenário em volta - que ficava difícil escolher um tema específico e se concentrar nele.

Andando pela trilha, comecei a encontrar pelo caminho muitas folhas furadas por insetos, formando figuras que poderiam ajudar a compor uma pequena história.

Fiquei impressionado com uma em que os furos formavam uma caveira. Me preparei para fotografar a folha mas no momento em que ia clicar veio uma lufada de vento balançado-a insistentemente. Esperei até que ela ficasse em repouso outra vez e então ajustei novamente a câmera, mas quando estava pronto para fotografar veio uma nova lufada de vento e eu tive que esperar mais um pouco. Depois, uma nova tentativa e, então, veio um vento mais forte, jogando poeira na câmera. Paciência. Peguei uma flanela e limpei cuidadosamente a objetiva. O vento continuava mas eu estava decidido a não perder aquela foto. Mas, enquanto me preparava para mais uma tentativa ia pensando:

- O que o grupo vai dizer quando eu apresentar uma foto de uma folha toda furada formando a figura de uma caveira?

- Ah! Vai ser uma gozação geral.

- Então, não vou tirar foto de folha com caveira, coisa nenhuma.

- Mas, depois de tanto trabalho? Não é melhor tirar a foto?

- Ah! Uma simples caveira? Não vale a pena.

- E se houver outras figuras?

- Pois é, então vou procurar.

Então, olhando atentamente para outras folhas, com alguma imaginação, consegui distinguir várias figuras, mas nada que pudesse resultar naquela foto vencedora com que todo fotógrafo sonha. Continuei com o meu diálogo interior:

- E se eu achasse uma folha com uma figura humana?

- Ah! Uma figura humana seria, pelo menos, uma bela curiosidade. Aí, sim. Se fosse uma rainha ou ... uma santinha.

- Uma santinha! É isso mesmo! Uma santinha, cara! Já pensou, se eu fotografasse uma santinha desenhada por um inseto numa folha perdida no meio do mato? Seria a glória. Iria vir gente de longe pra rezar na frente da folha. Eu ia ficar famoso. Iria construir uma gruta no local. Poderia fundar até uma nova religião, ganhar dinheiro...

- Mas cadê a bendita folha?

- Não tem nenhuma com esse desenho!

Então, caí na dura realidade, envolto por um enxame de pernilongos que me atacava ferozmente. Como resultado, fiquei com muitas marcas no rosto e nos braços. Marcas essas que até poderiam ter formado alguma figura interessante...

 

 

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